quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

PARA UMA CONTRACULTURA_Theodore Roszak

Este livro de Theodore Roszak, (que morreu em 2011 na Califórnia, aos 77 anos) cunhou a expressão “contracultura”, tentando dar um sentido a tudo que envolvia a juventude dos finais dos anos 50 e anos 60.
De repente, milhões de jovens em toda a parte levantaram-se contra o “sistema” (governo), os políticos, a guerra, as ditaduras militares, os professores, a autoridade em geral, a moral estabelecida, a sociedade de consumo, a arte “bem-feita”, os maiores de 30 anos ou, à falta de melhor, do pai e da mãe. No entanto isto não significava que todos protestassem contra as mesmas coisas. A contracultura foi a passagem do primado da razão (que levou uma parte ultrapolitizada da juventude a lutar contra as ditaduras, as desigualdades sociais, o sistema universitário, a censura etc.) ao primado da não razão (que fez com que outra parte preferisse sair das cidades e ir fumar drogas, fazer filhos, plantar e ouvir Jimi Hendrix no meio do mato).
Durante algum tempo, pareceu que a segunda facção - a dos hippies, drop-outs, psicodélicos, místicos, ocultistas e alienados em geral - iria prevalecer. Prometia-se um novo homem, sem os velhos defeitos, até que, naturalmente, o “sistema” absorveu esse antirracionalismo, converteu-o em produtos e serviços, e colocou-os à venda. A contracultura tornou-se a nova cultura, e com os mesmos vícios da anterior.

Roszak nunca aceitou bem essa conclusão. A contracultura não é uma fase na cultura popular depois cooptada e transformada em mercadoria pelo mesmo sistema que pretendia combater. Na verdade, se formos falar da contracultura como conceito (ideias e movimentos que propõem alternativas a modelos predominantes), é possível traçar um histórico que começa na Grécia Antiga e inclui os budistas zen, os iluministas do século XVIII e a boémia parisiense do início do século 20.
A contracultura floresce sempre e onde quer que alguns membros de uma sociedade escolham estilos de vida, expressões artísticas e formas de pensamento e comportamento que incorporem com sinceridade o antigo axioma segundo o qual a única verdade constante é a própria mudança. - “A marca da contracultura não é uma forma ou estrutura em particular, mas a fluidez de formas e estruturas, e a perturbadora velocidade e flexibilidade com que surge, sofre mutação, se transforma em outra e desaparece”, Timothy Leary

E onde está a contracultura hoje? Para Roszak, os ecos da contracultura estão entre nós até hoje na informalidade ao vestir, na comida mais saudável, na ecologia e nos direitos humanos. Podemos encontrá-la nos movimentos que combatem o capitalismo predatório, nos acampamentos de jovens nas praças espanholas, nas entidades pró-descriminalização, no Wikileaks, no cyber-activismo, na luta pelos direitos civis, etc.
A contracultura muitas vezes funciona como a vanguarda da sociedade. É o laboratório das ideias que serão aceitas pela maioria amanhã. É comum essa assimilação diluir a força (e até o sentido) do pensamento original, mas também acontece da sociedade aprender com a contracultura e adoptar as suas ideias na íntegra. “O caminho faz-se caminhando”, como disse o poeta castelhano António Machado.